Foco é movimento

Foco não existe sem movimento. Escrevo esse artigo no primeiro dia do ano de 2020. E o motivo não poderia ser outro. Comemoramos o movimento, o encerramento e início de uma nova translação de nosso planeta ao redor do Sol. Uma construção complexa e social que não mais se relaciona diretamente com os solstícios e equinócios, momentos em que a Terra fica mais perto ou longe do Sol. Nosso ano é uma construção nossa, nossa forma de medir o tempo, fundamental para que possamos compreender, planejar e medir o movimento da existência. Essa construção é tão poderosa, que mesmo povos de diferentes culturas utilizam essa mesma medida de tempo, esse mesmo calendário repartido em meses, semanas, dias, horas, minutos e segundos. O passar desse tempo, é o mesmo para todos. Tempo também é movimento, não necessariamente ação, mas movimento, como o movimento de um pêndulo, indo e vindo sem necessariamente fazer nada senão marcar o compasso desse fluxo inexorável. E o tempo funciona como esse pano de fundo, esse canvas onde pintamos a vida e a realidade com nossas ações. E é quando voltamos a frase que iniciou esse artigo. Foco não existe sem movimento. 

Do alto de uma árvore, às margens de um lago, uma águia espreita os peixes que navegam incautos próximos a superfície. Ela tem seus olhos fixos, seu foco inabalável na presa. Está prestes a alçar voo. Seu foco é um só, conseguir alimento. 

Quando falamos em foco, falamos de diferentes coisas. O significado literal da palavra é expresso como sendo um ponto para o qual alguma coisa converge. Quando pensamos em foco, podemos pensar no fenômeno visual, que é observar um ponto específico e deixar todo o resto de lado, clarear um ponto e esfumar o resto. Essa é talvez a grande analogia que cunhou o conceito de foco aplicado a nossas vidas, nossas atividades, nosso trabalho. Focar em alguma coisa é dar atenção total para aquela atividade, sem deixar o entorno interferir, sem desviar nossa atenção. Mas é aí que o conceito de foco se dissolve. Quando falamos ou pensamos, “Tenho que ter foco”  ou “Esse ano terei foco” e damos ao foco a expressão superficial de mirar para algo sem distrações e com atenção, esquecemos do mais importante. Foco não serve para nada sem o movimento.  

O foco da águia se mantém firme, lá do alto do galho, ela foca de forma constante para sua presa, nada em volta interrompe sua atenção, ela olha, e olha e olha…e quanto mais ela foca, mais faminta ela fica. Mas isso não importa, a fome deve ser esquecida, tudo em volta deve ser apagado, só a presa, só o foco naquele objetivo, esse ano, pensa a águia, meu foco vai ser inabalável. Duas semanas se passam, e a águia dissolve estatelada no chão. Focou por tanto tempo, que morreu de fome. 

O foco é a consequência de algo que converge. O foco de luz é a convergência de ondas eletromagnéticas em um ponto. Percebe? O foco só existe quando algo vai até ele. Sem movimento, o foco não existe. 

O pêndulo segue seu ritmo, mas na ficção podemos voltar para trás. Ainda não se passaram duas semanas, e a águia segue lá, viva, pousada no galho, altiva e focando em sua presa. Agora ela percebe que o foco só existe quando algo converge e se move até ele. É isso que ela precisa fazer, abrir as asas, gastar energia, lembrar que ela é uma águia, que ela tem as presas e o talento necessário para pegar a presa, que ela tem a energia e a atitude correta para alcançar seu objetivo, que ela tem a melhor estratégia para pegar o peixe, asas que vão permitir chegar por cima e pescar com suas garras em forma de gancho. Ela abre as asas e se joga, rapidamente flutua por cima do espelho d’água, sua sombra plana distante, pois o sol ainda está baixo no céu. Segue silenciosa com o peixe da mira. Foco não é mira, foco é ação, foco é movimento. Ela chega por cima do peixe e o arrebata da água, o carregando em suas garras de volta para o galho em que estava. Seu objetivo foi cumprido, agora ela tem o alimento que vai lhe dar energia para viver mais, alimentar sua prole, realizar novas ações e possibilidades.E em momento nenhum a águia realmente racionalizou sobre o que ela fez, processou o que ela fez. Foi instintivo, um processo direto, objetivo. Ela decidiu o que queria, acessou sua capacidade em realizar aquilo, realizou a ação, e nesse caso, alcançou o objetivo, aprendendo com ele, crescendo e impactando a si e quem sabe outras águias com sua realização. 

Nós não somos águias, mas temos o mesmo instinto. Entretanto, algo muito mais poderoso supera esses instintos e nos permite alcançar não somente um peixe na superfície d’água, mas nos permite colocar um homem na superfície da Lua. Nossa inteligência, nosso racional, nosso córtex realiza maravilhas, mas também encobre nossos instintos e nos obriga a racionalizar coisas que antes eram imediatas. Como por exemplo, contemplar e racionalizar que, por tanto tempo focamos em alguma coisa, desejamos alguma coisa, dissemos para nós mesmos que aquele era o ano de focar naquilo, mas nunca percebemos que nossas ações nunca convergiram para aquele ponto. 

Na verdade nunca realmente focamos naquele objetivo, somente observamos, olhamos de longe para uma direção, para um futuro, desejamos ir do ponto A para o ponto B, mas permanecemos imóveis, estáticos, seja por um motivo ou por causa de milhões de motivos, mas nunca realmente convergimos. Porque foco, o verdadeiro foco, não existe sem movimento.

E essa é a primeira coisa que precisamos fazer após o querer, logo depois que desejamos algo, logo depois que nos motivamos a fazer algo e buscar aquela realização. Devemos focar naquele objetivo, quer dizer, precisamos mirar no alvo e convergir para ele. Precisamos nos movimentar através do tempo, através dos céus, e mergulhar nas águas do nosso ser. E ao agir, puxar para a superfície nossas realizações, e devorá-las, e reparti-las, para então, alimentados e vivos, partirmos para novos objetivos.  

Sim, é difícil. É difícil porque, como comentei antes, existem milhões de motivos, impedimentos, barreiras, problemas, obstáculos, que vão impedir nosso movimento. Mas é aí que vive a beleza na vida. Quando percebemos que viver é se movimentar e agir no fluxo do tempo, e que focar é convergir para um ponto desejado, estamos dando o primeiro passo naquela direção.      

E esse foi o foco deste artigo. Foi a decisão que tomei no primeiro dia deste ano. Foi o primeiro passo dentre muitos que darei. Não mais observar as ideias que passam pela minha cabeça, mas convergir esses pensamentos realizando a ação de escrever, avaliando e compartilhando minha realização, materializada em exatamente 1191 palavras. Palavras digitadas e ritmadas pelo som de teclas, essa mesmas teclas movidas individualmente por meus dedos, comandados pelo movimento da minha mente, fluindo no tempo presente. Afinal de contas, a vida não existe sem movimento. E o pêndulo do tempo segue. Já passou da meia noite, já é dia 2, mas o foco permanece.

Feliz 2020

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